O Brasil também é território de tornados — e os fenômenos não se distribuem igualmente pelo mapa. Embora possam ocorrer em diferentes regiões do país, estudos históricos apontam uma concentração expressiva no Sul, especialmente em uma faixa que atravessa áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
A conclusão aparece em dois levantamentos independentes: um estudo ligado à Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que catalogou registros nacionais entre 1975 e 2018, e uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica Ciência e Natura, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
O levantamento apresentado pela UEPG examinou ocorrências registradas de 1975 a 2018 e contabilizou 581 tornados. Desse total, 411 foram identificados na Região Sul — aproximadamente 70,7% dos casos analisados. O Sudeste aparece em segundo lugar, com 108 registros.
Onde foram registrados mais tornados?
O Paraná, sozinho, aparece com 89 registros nesse conjunto histórico. O número não inclui tornados de 2019 em diante e tampouco permite concluir que o estado tenha sido o mais atingido do país em todos os períodos.
Um trabalho de Murilo Machado Lopes e Ernani de Lima Nascimento, publicado em 30 de abril de 2025 na revista Ciência e Natura, reuniu 310 ocorrências de tornados no Sul do Brasil a partir de diferentes tipos de evidência, incluindo fotografias, vídeos, documentos e imagens de satélite.
Os autores identificaram uma área de maior frequência na transição entre o norte gaúcho, o oeste catarinense e o sudoeste paranaense. O resultado aponta uma faixa geográfica de interesse meteorológico — não uma fronteira fixa, tampouco uma lista definitiva de municípios com risco calculado.
Onde fica a faixa de maior concentração?
Representação esquemática dos três setores destacados pela pesquisa da UFSM
A pesquisa também observou um máximo de ocorrências no inverno dentro de sua base de dados. Isso não significa que os demais períodos sejam seguros: tempestades severas e tornados podem ocorrer em outras estações, dependendo das condições atmosféricas.
O Centro-Sul da América do Sul reúne condições que, em determinadas situações, podem produzir tempestades intensas e organizadas. Não basta simplesmente fazer calor ou chover forte: a formação de tornados depende de uma combinação mais específica de ingredientes.
- Calor e umidade disponíveisO transporte de ar quente e úmido para o Sul pode fornecer energia para tempestades profundas.
- Frentes frias e outros mecanismos de levantamentoO avanço de sistemas meteorológicos pode forçar o ar úmido a subir e favorecer a formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical.
- Cisalhamento vertical do ventoDiferenças na direção e na intensidade dos ventos em diferentes alturas ajudam algumas tempestades a se organizar e desenvolver rotação.
- Tempestades supercelularesCertas supercélulas apresentam uma corrente ascendente rotativa, ou mesociclone. Algumas, mas não todas, produzem tornados.
Os ingredientes de uma tempestade tornádica
O destaque do Sul não significa exclusividade. A amostra histórica da UEPG contabilizou tornados nas cinco macrorregiões. O Sudeste somou 108 registros, enquanto o Centro-Oeste teve 31, o Norte 17 e o Nordeste 14.
O estado de São Paulo faz parte das áreas brasileiras estudadas por pesquisadores do tempo severo. Mato Grosso do Sul, por sua posição geográfica e exposição a sistemas convectivos no interior do continente, também exige atenção meteorológica. Eventos podem ocorrer em outras áreas do país, embora o volume de documentação histórica seja menor.
| Região | Registros | Proporção* |
|---|---|---|
| Sul | 411 | 70,7% |
| Sudeste | 108 | 18,6% |
| Centro-Oeste | 31 | 5,3% |
| Norte | 17 | 2,9% |
| Nordeste | 14 | 2,4% |
*Percentuais arredondados, calculados sobre 581 registros; podem não somar exatamente 100%. Fonte: UEPG, ocorrências entre 1975 e 2018.
Em 7 de novembro de 2025, tornados atingiram municípios do Paraná e provocaram destruição severa. No laudo técnico final divulgado em 27 de novembro, o Simepar classificou como F4 os tornados que atingiram Rio Bonito do Iguaçu e Guarapuava, mantendo em F2 o evento de Turvo.
Segundo o órgão, três tornados afetaram áreas de 11 municípios. O episódio ilustra que a discussão não envolve apenas estatísticas: conhecer a exposição territorial e os procedimentos de resposta é fundamental para reduzir danos.
Frequência histórica não é previsão
Um mapa de tornados documentados não informa qual cidade será atingida amanhã. Para decisões imediatas, é necessário consultar alertas da Defesa Civil e previsões de instituições meteorológicas oficiais.
Os três podem provocar danos muito intensos, mas têm dinâmicas diferentes. No tornado, uma coluna de ar em rotação se estende de uma nuvem de tempestade até a superfície. O vendaval é um termo amplo para ventos fortes. Já a microexplosão ocorre quando uma corrente descendente atinge o solo e se espalha de maneira intensa, geralmente produzindo um padrão de danos diferente do de um tornado.
O Simepar ressalta que supercélulas e microexplosões podem produzir ventos destrutivos, o que exige análise técnica para classificar adequadamente cada ocorrência.
Em situações de tempestade com potencial destrutivo, a prioridade é buscar abrigo seguro e seguir orientações oficiais:
- Procure o pavimento mais baixo de uma construção resistente, de preferência um cômodo interno e sem janelas.
- Afaste-se de vidros, portas externas e telhados leves.
- Não permaneça sob árvores, estruturas frágeis ou coberturas abertas.
- Se estiver em um veículo ou casa móvel, procure um abrigo estrutural seguro quando houver tempo e condições para isso. Não se abrigue sob viadutos.
- Acompanhe comunicados da Defesa Civil e alertas meteorológicos de sua região.
O Brasil tem uma “Avenida dos Tornados”?
Essa expressão é frequentemente usada de maneira informal para descrever regiões propícias ao fenômeno, mas não corresponde a uma delimitação meteorológica oficial única. Os estudos brasileiros identificam concentrações históricas de ocorrências, como a faixa do Sul destacada pela UFSM.
É possível ocorrer um tornado fora do Sul?
Sim. O levantamento da UEPG identificou registros nas cinco macrorregiões brasileiras. O Sul, contudo, concentrou a maior parte da amostra analisada.
Qual é a época com mais tornados?
No conjunto de dados da pesquisa da UFSM sobre o Sul, o inverno apresentou o máximo de ocorrências. Esse resultado não deve ser generalizado automaticamente para todo o país, nem descarta o risco em outras estações.
O El Niño causa tornados?
O El Niño modifica padrões de circulação e precipitação, mas não é correto afirmar que ele, isoladamente, cause tornados. A formação depende de condições atmosféricas locais e de curta duração, incluindo instabilidade e cisalhamento do vento.
A evidência disponível sustenta uma conclusão robusta: a Região Sul é o principal centro de tornados documentados no Brasil. Dentro dela, pesquisadores identificam uma concentração particularmente importante entre o norte do Rio Grande do Sul, o oeste de Santa Catarina e o sudoeste do Paraná.
Isso não transforma essa faixa em um limite absoluto do fenômeno. Pelo contrário: compreender a geografia dos tornados exige combinar climatologia, observação, análise de danos e sistemas de alerta — sobretudo em um país onde muitos eventos podem ter passado despercebidos.
Fontes e metodologia
Esta reportagem é uma síntese editorial original da Xplora, construída a partir de estudos acadêmicos e materiais oficiais. Os gráficos foram elaborados com os números divulgados pela UEPG; o corredor geográfico foi representado apenas de modo esquemático. Bases com métodos e períodos distintos não foram somadas.
- UEPG / SETI-PR — estudo sobre tornados brasileiros de 1975 a 2018 (2023).
- Lopes, M. M.; Nascimento, E. L. — Climatologia de ocorrências tornádicas no Sul do Brasil, Ciência e Natura (publicado em 2025).
- Simepar — Tornados, supercélulas e microexplosões: diferenças entre os fenômenos (2025).
- Simepar — Laudo técnico final dos tornados que atingiram 11 municípios paranaenses (2025).
- NOAA — informações educativas sobre tornados e segurança.
Limitações: ocorrências registradas não representam um censo completo dos tornados; não foram calculadas probabilidades futuras, risco por habitante nem classificações municipais. Atualização editorial: 13 de outubro de 2026.
Curadoria Xplora: Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Simepar e NOAA.





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