Gelo azul no Tibete chama atenção em meio ao recuo das geleiras
A cor intensa é uma característica física do gelo denso e antigo; o verdadeiro sinal de alerta está na perda acelerada das geleiras e de registros naturais do clima terrestre.

Imagens mostrando blocos e camadas de gelo de um azul intenso atribuídos às geleiras do Tibete estão chamando atenção nas redes sociais. Embora o visual seja impressionante, o gelo azul no Tibete não fica dessa cor simplesmente porque está derretendo. A explicação está nas propriedades físicas do gelo glacial, enquanto o verdadeiro motivo de preocupação é outro: a perda contínua de massa e de área das geleiras da região.
Estudos científicos mostram que o Planalto Tibetano e as grandes cadeias montanhosas que o cercam vêm registrando forte retração glacial nas últimas décadas. Além da importância para o abastecimento de água de grande parte da Ásia, algumas dessas geleiras preservam registros ambientais de centenas ou milhares de anos, que podem ser degradados à medida que o gelo aquece e derrete.
- O que chama atenção: o gelo extremamente azul observado em registros de geleiras.
- O que a ciência confirma: a região vem enfrentando significativa perda de gelo nas últimas décadas.
- Por que importa: geleiras funcionam como reservas de água e também preservam informações sobre o clima do passado.
Por que existe gelo azul no Tibete?
O azul intenso não é, por si só, um sinal de que uma geleira está derretendo. O fenômeno aparece principalmente quando a luz atravessa uma grande quantidade de gelo muito denso.
Durante a formação de uma geleira, novas camadas de neve se acumulam sobre as anteriores. Com o tempo, o peso das camadas superiores comprime o material abaixo, reduzindo os espaços de ar e formando gelo cada vez mais compacto.
Nessas condições, o gelo absorve com maior eficiência os comprimentos de onda mais longos da luz visível, incluindo parte do vermelho, enquanto a luz azul consegue atravessar e ser espalhada pelo material. Quanto maior o caminho percorrido pela luz dentro do gelo, mais intensa pode parecer a tonalidade azul.
Por isso, áreas internas de uma geleira, grandes fissuras e blocos de gelo muito compactados podem apresentar tons de azul ou azul-turquesa bastante fortes.
O fenômeno é descrito tanto pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) quanto pela Woods Hole Oceanographic Institution. A presença de poucas bolhas de ar também contribui para que o gelo profundo tenha aparência diferente da neve branca ou do gelo superficial mais fragmentado.
Derretimento pode deixar o gelo profundo mais visível
Existe, porém, uma relação indireta entre o recuo das geleiras e algumas dessas imagens. O derretimento, a erosão, as fraturas e o deslocamento do gelo podem retirar ou romper camadas superficiais e deixar partes mais profundas e compactas expostas.
Isso significa que o recuo de uma geleira pode revelar gelo azul que antes estava em seu interior. É diferente de afirmar que o gelo ficou azul porque começou a derreter.
Apenas a tonalidade de um bloco também não permite determinar visualmente sua idade exata. Para saber quando determinada camada se formou, pesquisadores precisam estudar a localização, profundidade, composição e estratigrafia do gelo.
No caso específico do vídeo que circula nas redes, a Xplora News não localizou até o momento uma fonte primária que permita confirmar de forma independente a geleira, a data e as circunstâncias exatas em que aquelas imagens foram registradas. Por isso, o registro visual não deve ser usado sozinho como prova de uma mudança recente naquele ponto específico.
Região perdeu cerca de 340 bilhões de toneladas de gelo
O processo mais amplo de retração glacial, por outro lado, está bem documentado.
Uma revisão científica publicada na Nature Reviews Earth & Environment analisou a chamada Torre d’Água Asiática, vasta região de altas montanhas que inclui o Planalto Tibetano, Himalaia e áreas vizinhas.
Segundo os pesquisadores, a região aqueceu aproximadamente 0,42 °C por década entre 1980 e 2018, ritmo equivalente a cerca do dobro da média global considerada no estudo.
Entre 2000 e 2018, a perda total estimada de massa das geleiras da Torre d’Água Asiática chegou a aproximadamente 340 gigatoneladas, ou 340 bilhões de toneladas.
Esse detalhe é importante porque o número é frequentemente apresentado nas redes sociais como se representasse exclusivamente as geleiras do Tibete. O estudo original utiliza uma área geográfica mais ampla.
Estudo de 2026 aponta forte redução da área glacial no Tibete
Uma pesquisa mais recente reforça o quadro de retração.
Em estudo publicado em julho de 2026 na revista científica Remote Sensing, pesquisadores utilizaram imagens de satélite e técnicas de classificação automatizada para acompanhar as mudanças das geleiras no Tibete entre 1990 e 2025.
Segundo os resultados, a área classificada como glacial caiu de aproximadamente 38.968 quilômetros quadrados no período de 1990 a 1997 para 22.026 quilômetros quadrados em 2024 e 2025.
A diferença corresponde a uma redução acumulada de aproximadamente 43,5% dentro da metodologia utilizada pelos pesquisadores. As perdas foram especialmente importantes no sudeste do Tibete.
O próprio estudo discute diferenças entre métodos de identificação e delimitação de geleiras. Por isso, os 43,5% devem ser entendidos como o resultado daquele levantamento, e não como uma porcentagem universal aplicável a qualquer inventário glacial da região.
Também não se deve comparar diretamente essa redução de área com as 340 gigatoneladas citadas anteriormente: uma medida representa área coberta por geleiras, enquanto a outra representa massa de gelo perdida, além de analisarem regiões e períodos diferentes.
Geleiras preservam arquivos do clima do passado
A perda das geleiras envolve mais do que a diminuição da quantidade de gelo.
Camadas acumuladas durante centenas ou milhares de anos podem preservar isótopos da água, partículas de poeira, aerossóis e outros componentes que ajudam pesquisadores a reconstruir mudanças da atmosfera e do clima terrestre.
Esses registros são estudados através dos chamados núcleos de gelo, cilindros retirados por perfurações realizadas nas geleiras.
Pesquisadores alertaram na revista Nature Geoscience que o aquecimento e o derretimento no Planalto Tibetano ameaçam progressivamente esses arquivos climáticos. Em alguns casos, a infiltração de água proveniente do degelo pode alterar a distribuição das substâncias preservadas no gelo antes mesmo do desaparecimento completo de uma geleira.
Isso cria uma corrida científica para coletar e preservar amostras enquanto os registros ainda podem ser interpretados de maneira confiável.
Por que as geleiras do Tibete são importantes?
O Planalto Tibetano integra um sistema de montanhas e geleiras frequentemente chamado de “Terceiro Polo” devido à grande quantidade de gelo existente fora das regiões polares.
A neve, as geleiras e outros componentes da criosfera participam do sistema hídrico que alimenta alguns dos grandes rios da Ásia. Alterações no ritmo de acumulação e derretimento podem modificar a disponibilidade e a distribuição sazonal da água.
Isso não significa que cada tonelada de gelo perdida provoque imediatamente falta de água. A relação envolve precipitação, neve, geleiras, lagos, águas subterrâneas, temperatura e demanda humana. Estudos sobre a Torre d’Água Asiática apontam justamente para um sistema cada vez mais desequilibrado entre diferentes regiões.
O que as imagens realmente mostram — e o que ainda não sabemos
A existência de gelo azul em geleiras é um fenômeno natural e bem conhecido. Também existe evidência científica consistente de que as geleiras tibetanas e de grande parte da região montanhosa asiática estão recuando.
O que não pode ser concluído apenas observando um vídeo é a idade daquele gelo, há quanto tempo ele está exposto ou se determinada camada apareceu recentemente em consequência direta do aquecimento.
Sem a localização original, a data da gravação e informações sobre a geleira filmada, essas afirmações continuariam sendo especulativas.
Portanto, o verdadeiro sinal de alerta não é simplesmente o azul impressionante visto nas imagens. São as medições realizadas ao longo de décadas que mostram perda de massa e redução de área glacial, além do risco de desaparecimento de registros ambientais preservados no gelo.
Apuração e curadoria: Xplora News. Conteúdo elaborado a partir das fontes indicadas, com seleção de pauta, verificação e revisão editorial humana. Ferramentas de inteligência artificial podem ser utilizadas como apoio à organização e à redação.




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