Pular para o conteúdo
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
XPLORANEWS
Início / Clima
Clima

Poluição do ar em Manaus atinge nível extremo com fumaça

Sensor do sistema SELVA registrou pico de 324,1 µg/m³ de PM2,5; comparação com rankings mundiais exige cautela por envolver metodologias diferentes.

Por Matias Gomessetembro 25, 20267 min de leitura
◯ Comentar

Manaus voltou a enfrentar uma forte deterioração da qualidade do ar em setembro de 2026. Em meio à fumaça provocada por incêndios e queimadas na Amazônia, sensores instalados na capital registraram concentrações extremamente elevadas de material particulado fino, conhecido como PM2,5.

Em 23 de setembro, um dos registros divulgados pelo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (SELVA) chegou a 324,1 microgramas por metro cúbico (µg/m³). O episódio levou a afirmações de que Manaus estaria naquele momento com o “pior ar do mundo”. A comparação, porém, precisa ser analisada com cautela.

O número mostra uma situação de poluição severa, mas não equivale automaticamente a uma classificação oficial da capital amazonense como a cidade mais poluída do planeta.

  • O que aconteceu: a fumaça das queimadas elevou fortemente as concentrações de partículas finas em Manaus.
  • O que foi registrado: o SELVA apontou um pico de 324,1 µg/m³ de PM2,5 em 23 de setembro.
  • O que exige cautela: o pico local não deve ser comparado diretamente a médias de 24 horas ou rankings internacionais calculados por outras redes de monitoramento.

Por que a poluição do ar em Manaus chegou a níveis tão altos?

A fumaça observada sobre Manaus está relacionada principalmente à ocorrência de queimadas e incêndios florestais no Amazonas e em regiões próximas.

Segundo levantamento publicado pela Amazônia Real com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Amazonas contabilizou 3.240 focos de calor entre 1º e 23 de setembro de 2026.

O próprio banco de dados do Programa Queimadas do INPE mantém registros diários de focos detectados por satélite na América do Sul.

A concentração de fumaça também varia ao longo do dia. Durante a noite e no início da manhã, a atmosfera próxima da superfície tende a ficar mais estável, dificultando a dispersão dos poluentes. Com isso, partículas provenientes das queimadas podem permanecer concentradas perto do solo.

Esse comportamento ajuda a explicar por que alguns dos registros mais elevados ocorreram durante as primeiras horas do dia.

O que significa o pico de 324,1 µg/m³ de PM2,5?

PM2,5 é o nome dado a partículas presentes no ar com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros. Por serem extremamente pequenas, elas conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda uma concentração de 15 µg/m³ para a média de 24 horas de PM2,5 e de 5 µg/m³ para a exposição média anual.

O pico de 324,1 µg/m³ registrado pelo SELVA é numericamente cerca de 21,6 vezes maior que a diretriz de 15 µg/m³. Entretanto, existe uma diferença fundamental: os 324,1 µg/m³ correspondem a uma leitura pontual, enquanto o parâmetro da OMS considera uma média de 24 horas.

Por isso, não é tecnicamente correto afirmar que Manaus estava “21 vezes acima do limite diário da OMS” sem calcular primeiro a média de exposição ao longo das 24 horas.

Manaus realmente teve o pior ar do mundo?

A afirmação surgiu após uma comparação entre os dados do SELVA e informações da plataforma internacional IQAir.

Naquele período, a Amazônia Real informou que Kinshasa, na República Democrática do Congo, apresentava aproximadamente 172,6 µg/m³ em uma consulta à IQAir, enquanto um sensor de Manaus chegou aos 324,1 µg/m³.

O problema é que os números não necessariamente representam a mesma coisa. O dado de Manaus veio de um sensor específico do SELVA e representa uma leitura localizada, enquanto plataformas internacionais podem utilizar estações, médias, índices de qualidade do ar e períodos de cálculo diferentes.

O próprio SELVA informa que utiliza sensores de baixo custo projetados para fornecer informações rápidas à população. A plataforma alerta que os resultados podem ser influenciados por fatores como vento, poeira, fumaça e manutenção dos equipamentos e recomenda que os dados sejam utilizados como indicadores das condições locais, e não isoladamente para finalidades científicas ou regulatórias.

Assim, há evidências sólidas de que Manaus enfrentou níveis extremamente elevados de poluição, mas não há base suficiente para tratar o pico de um sensor como uma confirmação de que a cidade ocupou oficialmente o primeiro lugar mundial em qualidade do ar mais degradada.

Fumaça já vinha afetando Manaus durante setembro

O episódio de 23 de setembro não ocorreu de forma isolada. Dados divulgados ao longo do mês mostraram repetidos períodos de piora da qualidade do ar na capital.

Segundo a Amazônia Real, o SELVA havia registrado concentrações de 48,5 µg/m³ em 8 de setembro, 118 µg/m³ no dia 9, 182,7 µg/m³ no dia 13 e 129,5 µg/m³ no dia 17 em diferentes medições.

A rede de monitoramento do SELVA foi desenvolvida pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). O sistema reúne sensores distribuídos pela região e permite acompanhar em tempo real variáveis como qualidade do ar, queimadas e condições meteorológicas.

A Prefeitura de Manaus também passou a integrar uma estação de monitoramento instalada na Defesa Civil à rede do SELVA em junho de 2026.

Quais são os riscos da exposição à fumaça?

A presença elevada de PM2,5 é motivo de preocupação porque essas partículas estão entre os principais poluentes associados a efeitos adversos sobre a saúde.

Nos períodos de fumaça intensa, autoridades de saúde recomendam atenção principalmente a crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

Entre os sintomas que podem aparecer durante episódios de poluição estão irritação nos olhos e na garganta, tosse, coriza, dores de cabeça, chiado no peito e dificuldade para respirar.

Em Manaus, escolas também foram orientadas a evitar atividades físicas ao ar livre durante os períodos de maior concentração de fumaça, além de reforçar medidas como hidratação e observação de sintomas entre estudantes.

Situação começou a melhorar após chuva

Na quinta-feira, 24 de setembro, a fumaça continuou afetando Manaus e outras áreas da região metropolitana. Algumas competições esportivas das categorias de base chegaram a ser adiadas devido às condições atmosféricas.

Já nesta sexta-feira, 25 de setembro, a chuva registrada em diferentes bairros ajudou a reduzir a concentração de fumaça. Mesmo com a melhora, medições do SELVA ainda indicavam qualidade do ar ruim em determinadas áreas da cidade.

Isso mostra como os níveis podem mudar rapidamente conforme a ocorrência de novos incêndios, direção do vento, estabilidade da atmosfera e precipitação.

O que ainda precisa ser acompanhado

Está confirmado que Manaus enfrentou um episódio severo de poluição atmosférica e que sensores do SELVA registraram concentrações muito elevadas de PM2,5 durante setembro de 2026.

Também está documentado que milhares de focos de calor foram detectados no Amazonas durante o mês, aumentando a quantidade de fumaça disponível para ser transportada pela atmosfera.

O que não pode ser afirmado com o mesmo grau de certeza é que Manaus tenha ocupado oficialmente o posto de cidade com “o pior ar do mundo”. Para uma comparação desse tipo, seria necessário utilizar medições equivalentes, coletadas durante períodos semelhantes e submetidas à mesma metodologia.

A evolução das queimadas, as condições meteorológicas e os dados das estações de monitoramento continuarão sendo determinantes para saber quando a qualidade do ar voltará a níveis mais seguros.


Apuração e curadoria: Xplora News. Conteúdo elaborado a partir das fontes indicadas, com seleção de pauta, verificação e revisão editorial humana. Ferramentas de inteligência artificial podem ser utilizadas como apoio à organização e à redação.

Fontes consultadas

Compartilhe:WhatsAppFacebookX
Avatar de Matias Gomes

Matias Gomes

Matias Gomes é criador, autor e editor responsável pelo Xplora News. Atua com produção de conteúdo digital desde 2014 e é responsável pela seleção das pautas, consulta e verificação das fontes, contextualização, revisão e aprovação final das publicações sobre Brasil, mundo, geopolítica, tecnologia, clima e atualidades.

0 comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *