Houthis chegam a Bab el-Mandeb e ampliam ameaça no Mar Vermelho
Grupo aliado do Irã tomou posições estratégicas na costa do Iêmen e chegou à ilha de Perim, elevando a pressão sobre uma passagem usada pelo comércio entre Ásia e Europa.

Os Houthis chegaram ao estreito de Bab el-Mandeb após uma rápida ofensiva pelo oeste do Iêmen, colocando o grupo aliado do Irã em uma posição ainda mais estratégica no Mar Vermelho. Combatentes avançaram pela costa, tomaram a cidade portuária de Mokha e chegaram à ilha de Perim, também chamada de Mayun, localizada praticamente no meio da passagem marítima.
A movimentação chama atenção muito além do Iêmen. Bab el-Mandeb conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e faz parte da rota utilizada por embarcações que seguem pelo Canal de Suez entre a Ásia e a Europa. Segundo a Reuters, cerca de 12% do comércio mundial passa pela região e um eventual fechamento poderia restringir o fluxo equivalente a aproximadamente 7% do fornecimento global de petróleo.
Apesar da gravidade da situação, é importante fazer uma distinção: os Houthis ainda não fecharam Bab el-Mandeb. O avanço aumenta significativamente a capacidade do grupo de pressionar e ameaçar o tráfego marítimo, mas embarcações continuam passando pelo estreito.
Como os Houthis chegaram ao estreito de Bab el-Mandeb
A ofensiva avançou rapidamente pela costa do Mar Vermelho. Na quinta-feira, 10 de setembro, os Houthis assumiram o controle de Mokha, importante cidade portuária que estava nas mãos de forças ligadas ao governo iemenita reconhecido internacionalmente. O avanço também alcançou as ilhas Hanish.
No dia seguinte, fontes do governo do Iêmen disseram à Reuters que as forças Houthis chegaram a Dhubab, cidade localizada diretamente em Bab el-Mandeb, e à estratégica ilha de Perim. A posição da ilha é especialmente importante porque ela divide o estreito em dois canais de navegação.
O movimento representa uma mudança significativa no mapa da guerra do Iêmen. Os Houthis já controlavam a capital, Sanaá, e grande parte das áreas mais populosas do país, mas o avanço recente amplia sua presença sobre a costa sul do Mar Vermelho.
Por que Bab el-Mandeb é tão importante
Bab el-Mandeb, cujo nome pode ser traduzido como “Portão das Lágrimas”, é um dos chamados chokepoints marítimos: passagens estreitas pelas quais transita uma parcela muito grande do comércio internacional.
Navios que saem do Oceano Índico em direção ao Mediterrâneo normalmente atravessam o Golfo de Áden, Bab el-Mandeb, o Mar Vermelho e o Canal de Suez. Um bloqueio pode obrigar embarcações a contornar toda a África pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando distância, tempo de viagem, consumo de combustível e custos de transporte.
A situação se torna ainda mais relevante porque o Estreito de Hormuz, localizado no outro lado da Península Arábica, já enfrenta fortes interrupções provocadas pela guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Antes do conflito, aproximadamente um quinto do petróleo mundial transitava por Hormuz.
Com Hormuz comprometido, a Arábia Saudita passou a depender ainda mais de portos no Mar Vermelho. O avanço dos Houthis significa que uma segunda rota fundamental para o transporte de petróleo do Oriente Médio também está sob crescente pressão.
Houthis dizem que não fecharam passagem para todos os navios
O porta-voz militar Houthi, Yahya Saree, afirmou que a navegação continuava segura para embarcações em geral, com exceção de navios sauditas submetidos a uma proibição previamente anunciada pelo grupo. A declaração, contudo, não elimina o risco de uma escalada militar na região.
Neste sábado, 12 de setembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que representantes dos Houthis entraram em contato com sua administração e indicaram que não desejam uma intervenção militar direta americana. Trump também declarou que, segundo o grupo, a maior parte dos navios continua sendo autorizada a passar.
Portanto, afirmar que os Houthis já “controlam todo o Mar Vermelho” ou que “fecharam Bab el-Mandeb” iria além do que está confirmado neste momento. O que mudou é que o grupo agora ocupa posições que aumentam sua capacidade de interferir na passagem.
Arábia Saudita pede apoio aos Estados Unidos
A ofensiva também provocou uma mudança na postura saudita. Fontes ouvidas pela Reuters disseram que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman pediu ao presidente Donald Trump apoio militar americano contra os Houthis.
Washington não concordou, pelo menos até agora, em realizar ataques diretos contra o grupo. Os Estados Unidos se dispuseram a fornecer inteligência e apoio para identificação de alvos às forças sauditas e seus aliados.
A decisão americana reflete outro problema: enfrentar novamente os Houthis exigiria aeronaves, navios, sistemas de defesa e munições adicionais em um momento em que as Forças Armadas dos Estados Unidos já estão comprometidas em outras frentes da guerra regional.
Uma intervenção americana também colocaria em risco o acordo firmado anteriormente entre Washington e os Houthis, no qual os Estados Unidos interromperam ataques contra o grupo em troca da redução das ofensivas contra embarcações no Mar Vermelho.
Escalada também atinge diretamente a Arábia Saudita
A atual ofensiva terrestre ocorre paralelamente a uma retomada dos ataques entre Houthis e Arábia Saudita. Em 8 de setembro, ataques com drones e mísseis atingiram cidades e instalações sauditas. Autoridades do país informaram que 73 pessoas ficaram feridas, entre elas mulheres e crianças.
A Arábia Saudita respondeu com ataques aéreos contra posições Houthis no Iêmen. A escalada rompe o período de relativa calma mantido depois da trégua mediada pela Organização das Nações Unidas em 2022.
Separadamente, a Arábia Saudita também interrompeu temporariamente seu estratégico oleoduto Leste-Oeste depois de um ataque com drones. Autoridades sauditas e iraquianas disseram que o ataque teria partido do território do Iraque, onde atuam milícias alinhadas ao Irã. Não havia reivindicação de autoria e o ataque não deve ser atribuído automaticamente aos Houthis.
População do Iêmen volta a fugir dos combates
Para a população iemenita, a retomada das grandes operações militares ameaça encerrar anos de relativa redução das hostilidades. Em 8 de setembro, a ONU informou que mais de 5.600 famílias haviam sido deslocadas pelas novas batalhas em Taiz e no sul de Hodeidah desde o início da escalada em 3 de setembro.
O Iêmen enfrenta uma guerra prolongada desde que os Houthis tomaram Sanaá em 2014. Em 2015, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita entrou militarmente no conflito para apoiar o governo internacionalmente reconhecido.
Uma trégua mediada pela ONU em 2022 reduziu significativamente os confrontos diretos em grande escala, embora uma solução política definitiva nunca tenha sido alcançada.
O que pode acontecer agora
Há três questões centrais a acompanhar. A primeira é se os Houthis tentarão consolidar permanentemente suas novas posições em Mokha, Dhubab e Perim. A segunda é se a Arábia Saudita e as forças iemenitas conseguirão lançar uma contraofensiva para recuperar parte dessas áreas.
A terceira — e com maior potencial de impacto internacional — é se os Houthis passarão a utilizar sua nova posição para restringir de forma mais ampla a navegação em Bab el-Mandeb.
Por enquanto, não existe confirmação de um bloqueio total do estreito. O avanço, entretanto, colocou um grupo armado alinhado ao Irã em posições estratégicas sobre uma passagem utilizada por aproximadamente 12% do comércio mundial, justamente quando o transporte de petróleo no Oriente Médio já sofre com a crise no Estreito de Hormuz.
Isso transforma a disputa territorial no Iêmen em um problema que pode ter consequências muito além da região, afetando transporte marítimo, preços de energia, cadeias globais de abastecimento e a própria evolução da guerra no Oriente Médio.
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