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Veado-preto no Pantanal é confirmado pela ciência

Uma fêmea fotografada em Mato Grosso do Sul tornou-se o primeiro registro científico de melanismo no cervo-do-pantanal; outros exemplares foram identificados no Cerrado.

Por Matias Gomesagosto 25, 20266 min de leitura
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Uma antiga história contada por moradores do Pantanal ganhou confirmação científica. Uma fêmea de cervo-do-pantanal com a pelagem extremamente escura, fotografada em Mato Grosso do Sul, tornou-se o primeiro caso documentado de melanismo na espécie.

  • O primeiro registro ocorreu em fevereiro de 2021, na Caiman Pantanal.
  • A pesquisa foi conduzida por integrantes da Onçafari e da Embrapa Pantanal.
  • Outros cervos com a mesma característica foram identificados no Cerrado.

O chamado veado-preto no Pantanal não representa uma espécie nova. O animal é um exemplar de cervo-do-pantanal, de nome científico Blastocerus dichotomus, que apresenta uma rara alteração de pigmentação conhecida como melanismo.

A descoberta foi descrita no estudo científico “First ever records of melanism in Marsh deer Blastocerus dichotomus”, publicado em agosto de 2026 na revista Notas sobre Mamíferos Sudamericanos.

O trabalho é assinado por Diogo L. L. D. Santana, Carlos E. Fragoso, Marcos R. M. Brito, Taile E. S. Nascimento, Daniel A. da Silveira Filho e Walfrido M. Tomas. Os cinco primeiros pesquisadores estão ligados à Associação Onçafari, enquanto Tomas pertence à Embrapa Pantanal.

O primeiro veado-preto registrado no Pantanal

A primeira ocorrência analisada pelos pesquisadores aconteceu em 26 de fevereiro de 2021. Uma fêmea adulta com a pelagem muito mais escura que a coloração comum da espécie foi observada e fotografada por um integrante da equipe na Caiman Pantanal, localizada em Miranda, Mato Grosso do Sul.

A área, que combina uma fazenda pecuária e uma reserva natural, possui aproximadamente 530 quilômetros quadrados. O local desenvolve atividades de observação da fauna desde o final da década de 1980 e é monitorado por pesquisadores por meio de observações de campo e armadilhas fotográficas.

Segundo o comunicado publicado pela Onçafari, o exemplar não voltou a ser avistado depois daquele encontro.

O registro chamou atenção porque quase quatro décadas de pesquisas e levantamentos populacionais no Pantanal não haviam documentado oficialmente um cervo-do-pantanal melânico. A população da espécie no bioma já foi estimada em mais de 40 mil animais, representando aproximadamente 88% dos indivíduos encontrados no Brasil.

Apesar da ausência de comprovação científica anterior, moradores e pescadores pantaneiros já relatavam a existência de cervos de pelagem preta. O próprio estudo menciona a Baía do Cervo Preto, próxima à Estação Ecológica de Taiamã, em Mato Grosso, como um exemplo da presença do animal nas histórias locais.

O que é o melanismo?

O melanismo é uma alteração de pigmentação associada à produção excessiva de melanina. Essa condição faz com que a pelagem, as penas ou a pele de determinados animais adquiram uma coloração muito mais escura que o padrão normalmente observado na espécie.

No caso do cervo-do-pantanal, a pelagem habitual apresenta tons castanho-avermelhados, com áreas mais claras no ventre e partes escuras nas pernas e na cauda. Nos exemplares melânicos documentados pelos pesquisadores, o corpo aparece em um tom castanho muito fechado, podendo parecer completamente preto dependendo da iluminação e da distância.

Isso significa que o “veado-preto” não é uma nova espécie e também não deve ser confundido com um animal tingido, coberto por lama ou escurecido artificialmente em uma imagem. Trata-se de uma variação real da pigmentação do Blastocerus dichotomus.

Casos de albinismo e leucismo, condições que provocam perda total ou parcial de pigmentação, já haviam sido descritos em cervos-do-pantanal. Até a publicação do novo estudo, entretanto, não existia um registro científico de melanismo na espécie.

Outros cervos escuros foram encontrados no Cerrado

O estudo também reuniu registros feitos no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, localizado entre Minas Gerais e Bahia. Nessa região do Cerrado, os pesquisadores encontraram pelo menos dois machos melânicos diferentes.

Entre janeiro de 2022 e fevereiro de 2026, o monitoramento acumulou 61.830 noites de funcionamento das câmeras. Nesse período, foram obtidos somente 31 registros independentes de cervos-do-pantanal, dos quais três mostravam animais melânicos.

As equipes também realizaram 12 observações diretas da espécie. Oito desses encontros envolveram cervos de pelagem escura. Todos os registros de melanismo no Cerrado considerados no estudo ocorreram entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026.

A comparação entre as imagens, principalmente das características corporais e das galhadas, permitiu concluir que havia pelo menos dois machos melânicos diferentes. Os animais foram vistos se alimentando, acompanhados por cervos com a coloração comum e até com um carcará-de-cabeça-amarela pousado sobre um deles.

Por que há mais registros no Cerrado?

A frequência relativamente alta dos avistamentos no Grande Sertão Veredas levantou uma nova questão. Enquanto apenas uma fêmea melânica foi observada no Pantanal, os animais escuros apareceram em oito das 12 observações diretas de cervos realizadas no parque.

Uma das hipóteses apresentadas pelos autores envolve o isolamento da população do Cerrado. Nessa região, o cervo-do-pantanal enfrenta redução das áreas úmidas, perda de habitat, caça e fragmentação da paisagem.

Populações pequenas e isoladas podem sofrer os efeitos da deriva genética e da endogamia, quando aumenta a reprodução entre indivíduos geneticamente próximos. Essas condições poderiam facilitar a manifestação de características raras, como o melanismo.

Os próprios pesquisadores, porém, ressaltam que essa explicação ainda precisa ser investigada. Os registros disponíveis não demonstram que o isolamento genético seja a causa da coloração escura, apenas indicam uma possível relação que deverá ser examinada em estudos futuros.

A pelagem preta prejudica os animais?

As vantagens e desvantagens do melanismo no cervo-do-pantanal ainda não são conhecidas. Em ambientes abertos, uma pelagem escura pode absorver mais calor e oferecer uma camuflagem diferente daquela proporcionada pela coloração avermelhada comum da espécie.

Apesar dessas possibilidades, os indivíduos observados no Cerrado apresentavam aparência saudável e foram registrados sob o sol, em áreas abertas e próximas a regiões sujeitas a alagamentos. Portanto, ainda não há evidências suficientes para afirmar que o melanismo esteja causando problemas diretos aos animais encontrados.

O estudo reforça a importância do monitoramento de longo prazo. Além de revelar uma característica nunca descrita para a espécie, as imagens podem ajudar os cientistas a acompanhar a saúde genética e a situação das populações de cervos em diferentes regiões brasileiras.

O que ainda falta descobrir

Está confirmado que existem cervos-do-pantanal melânicos tanto no Pantanal quanto no Cerrado. Também está documentado que a fêmea de Mato Grosso do Sul foi vista uma única vez e que pelo menos dois machos diferentes foram identificados no Grande Sertão Veredas.

A origem exata dessa característica, sua frequência nas populações e possíveis efeitos sobre a sobrevivência dos animais permanecem desconhecidos. Novas análises genéticas e a continuidade do monitoramento serão necessárias para responder a essas perguntas.

A confirmação científica mostra que os relatos dos pantaneiros possuíam uma base real. Mesmo sendo o maior cervídeo da América do Sul e vivendo principalmente em áreas abertas e úmidas, o cervo-do-pantanal ainda guarda características pouco conhecidas pela ciência.


Apuração e curadoria: Xplora News. Conteúdo elaborado a partir das fontes indicadas, com seleção de pauta, verificação e revisão editorial humana. Ferramentas de inteligência artificial podem ser utilizadas como apoio à organização e à redação.

Fontes consultadas

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Matias Gomes

Matias Gomes é criador, autor e editor responsável pelo Xplora News. Atua com produção de conteúdo digital desde 2014 e é responsável pela seleção das pautas, consulta e verificação das fontes, contextualização, revisão e aprovação final das publicações sobre Brasil, mundo, geopolítica, tecnologia, clima e atualidades.

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