Tornados no Brasil: quais regiões têm maior risco de ocorrência?
Estudos apontam maior concentração no Sul, especialmente entre o norte gaúcho, oeste catarinense e sudoeste paranaense, mas outros estados também apresentam condições favoráveis ao fenômeno.

Os dados disponíveis indicam que o Centro-Sul do Brasil concentra as áreas mais favoráveis à ocorrência de tornados, com destaque para Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Dentro da Região Sul, uma climatologia científica identificou uma concentração especialmente importante entre o norte do Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná.
Isso não significa, porém, que tornados ocorram apenas nesses locais. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) destaca São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul entre os estados brasileiros com maior risco de ocorrência de tornados e trombas-d’água.
O próprio órgão ressalta que esses fenômenos podem acontecer em outros pontos do país quando as condições atmosféricas necessárias estão presentes. Por isso, não existe uma fronteira a partir da qual o risco simplesmente desaparece.
Há ainda uma limitação importante: o Brasil não possui um histórico de tornados tão completo quanto países como os Estados Unidos. Registros antigos podem ter passado despercebidos, especialmente em regiões rurais ou pouco povoadas, o que exige cautela ao comparar estados apenas pelo número de ocorrências conhecidas.
O Sul do Brasil concentra uma área importante de ocorrência
Uma das análises mais detalhadas sobre o assunto foi realizada pelos pesquisadores Murilo Machado Lopes e Ernani de Lima Nascimento e publicada na revista científica Ciência e Natura, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
O estudo sobre a climatologia de ocorrências tornádicas no Sul do Brasil reuniu 310 ocorrências a partir de diferentes tipos de evidências, como vídeos, fotografias, relatos de danos, trabalhos científicos e rastros de destruição identificados por sensoriamento remoto.
Ao analisar a distribuição espacial desses eventos, os pesquisadores encontraram uma faixa com maior frequência envolvendo principalmente o norte do Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná.
Essa concentração coloca parte do interior da Região Sul entre as áreas brasileiras que merecem maior atenção quando existem previsões de tempestades severas.
O estudo também destaca que o setor subtropical da América do Sul localizado a leste da Cordilheira dos Andes, onde está inserido o Sul brasileiro, é frequentemente afetado por tempestades convectivas severas. Em algumas situações, os ingredientes atmosféricos necessários para tornados também aparecem.
[LINK INTERNO SUGERIDO: matéria sobre tornados registrados no Paraná em 2026]
Por que essa região favorece tempestades severas?
Um tornado não surge simplesmente porque está muito quente ou porque uma tempestade é intensa. É necessária uma combinação de fatores atmosféricos capazes de produzir e organizar fortes correntes de ar dentro das nuvens.
Outro trabalho de Lopes e Nascimento, publicado em 2024 na revista científica Climate Dynamics, analisou ambientes atmosféricos associados a tornados no Sul do Brasil e áreas vizinhas.
O estudo publicado pela Springer Nature comparou episódios tornádicos com outros tipos de tempestades e encontrou diferenças importantes no ambiente atmosférico em que eles se desenvolveram.
Entre os elementos relevantes está o chamado cisalhamento vertical do vento. O termo descreve mudanças na velocidade ou na direção do vento conforme aumenta a altitude.
Quando existe forte instabilidade atmosférica combinada com cisalhamento adequado, uma tempestade pode desenvolver uma corrente ascendente organizada e rotativa. Algumas dessas tempestades são classificadas como supercélulas, conhecidas pela capacidade de produzir fenômenos severos como granizo grande, rajadas destrutivas e, em determinadas situações, tornados.
O estudo também encontrou diferenças em parâmetros relacionados à energia disponível para a convecção. Um deles é a CAPE, sigla em inglês para energia potencial convectiva disponível, utilizada pelos meteorologistas para avaliar quanto potencial existe para movimentos ascendentes intensos dentro das tempestades.
Esses parâmetros, isoladamente, não significam que um tornado obrigatoriamente irá se formar. Eles servem para identificar ambientes mais ou menos favoráveis ao desenvolvimento de tempestades capazes de produzi-los.
Quais estados aparecem entre os de maior risco?
Em sua página dedicada a tornados e trombas-d’água, o Cemaden afirma que, embora os fenômenos possam acontecer em qualquer ponto do território brasileiro, fatores meteorológicos e climáticos fazem com que algumas áreas apresentem riscos mais elevados.
O órgão destaca os seguintes estados:
- São Paulo;
- Rio Grande do Sul;
- Santa Catarina;
- Paraná;
- Rio de Janeiro;
- Minas Gerais;
- Mato Grosso do Sul.
A lista não deve ser interpretada como um ranking no qual todo o território de um estado apresenta exatamente a mesma probabilidade. Estados brasileiros possuem áreas enormes e características meteorológicas diferentes.
A climatologia da UFSM permite acrescentar uma informação mais específica para o Sul: dentro dos três estados da região, a maior frequência encontrada na base analisada ficou concentrada principalmente entre norte gaúcho, oeste catarinense e sudoeste paranaense.
São Paulo também possui tornados documentados pela literatura científica. Um exemplo é um tornado de múltiplos vórtices analisado por pesquisadores em um estudo publicado pela American Meteorological Society.
[LINK INTERNO SUGERIDO: matéria explicando como um tornado se forma]
Supercélula, nuvem funil e tornado não são a mesma coisa
O aumento da quantidade de vídeos de tempestades nas redes sociais também tornou importante diferenciar alguns fenômenos.
De acordo com o Cemaden, grande parte dos tornados está relacionada a grandes tempestades convectivas. Algumas podem desenvolver rotação organizada.
Uma nuvem funil é uma coluna de ar em rotação que se estende a partir da base da nuvem, mas que não apresenta circulação alcançando o solo. Para que o fenômeno seja classificado como tornado, a circulação precisa chegar à superfície.
Quando um fenômeno semelhante ocorre sobre grandes corpos d’água, como mares, lagos, represas ou grandes rios, é chamado de tromba-d’água.
Por isso, a aparência de uma nuvem em formato de funil em um vídeo não é suficiente, sozinha, para confirmar um tornado. Meteorologistas podem analisar imagens, vídeos, radares, relatos e o padrão dos danos deixados no terreno para determinar o que realmente aconteceu.
Casos recentes no Paraná mostram que o risco é real
O Paraná oferece exemplos recentes da ocorrência de tornados no país.
Em 8 de agosto de 2026, um tornado atingiu Piraí do Sul, nos Campos Gerais. O Simepar confirmou oficialmente o fenômeno após analisar registros visuais e as características observadas no evento.
O órgão informou que a determinação da intensidade dependia de uma avaliação conjunta dos vídeos, relatos e da distribuição dos danos.
Meses antes, outros episódios já haviam sido confirmados no estado. Segundo um balanço publicado pelo Simepar sobre janeiro de 2026, dois tornados foram classificados naquele mês.
No dia 1º de janeiro, um tornado F1 atingiu a comunidade de Arroio Guaçu, no município de Mercedes. Em 10 de janeiro, um tornado F2 atingiu São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
Segundo o Simepar, o episódio de São José dos Pinhais provocou danos em aproximadamente 350 residências, impactou mais de 1,2 mil pessoas e deixou duas pessoas levemente feridas.
Esses episódios recentes, isoladamente, não são suficientes para concluir que o número de tornados esteja aumentando no Paraná ou no Brasil. Para estabelecer uma tendência climática seria necessário analisar séries históricas longas e considerar também o crescimento da capacidade de identificar e documentar esses fenômenos.
[LINK INTERNO SUGERIDO: matéria sobre o tornado de Piraí do Sul]
O Brasil pode ter mais tornados do que os registros indicam?
Uma das maiores dificuldades para estudar tornados no país é justamente descobrir quantos ocorreram no passado.
A pesquisadora Maria Assunção Faus da Silva Dias analisou essa questão em um trabalho publicado em 2011 na revista Weather, Climate, and Society, da American Meteorological Society.
O estudo investigou o aumento observado no número de relatos de tornados no Brasil e mostrou a importância de fatores como população, meios de comunicação e internet na quantidade de eventos que acabam documentados.
Isso cria um problema para qualquer mapa histórico. Um tornado que atinge uma região urbana tende a ser filmado por várias pessoas e rapidamente divulgado. Um fenômeno semelhante que ocorra sobre uma área rural pouco habitada pode nunca entrar em um banco de dados.
Além disso, atualmente praticamente qualquer pessoa carrega um celular capaz de registrar vídeos de alta qualidade. Décadas atrás, muitos fenômenos que hoje seriam documentados em segundos poderiam simplesmente passar sem registro visual.
A climatologia desenvolvida pela UFSM procurou ampliar a capacidade de identificação utilizando diferentes fontes, inclusive sensoriamento remoto por satélite para encontrar rastros de destruição. Mesmo assim, os pesquisadores ressaltam que o registro de tornados no Sul brasileiro ainda é incipiente quando comparado a regiões do mundo com bancos de dados de tempo severo consolidados.
Existe uma “Tornado Alley” brasileira?
A expressão Tornado Alley é tradicionalmente associada a áreas dos Estados Unidos conhecidas pela elevada ocorrência de tornados. Aplicar o mesmo nome ao Brasil exige cautela.
As pesquisas permitem identificar uma concentração importante de ocorrências no Sul brasileiro, especialmente entre partes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas não existe atualmente uma “Tornado Alley brasileira” oficialmente definida e monitorada nos mesmos moldes da climatologia norte-americana.
Também seria incorreto concluir que todas as cidades localizadas nessa faixa possuem exatamente o mesmo risco. A ocorrência de um tornado depende das condições meteorológicas de cada tempestade, e eventos podem acontecer fora das áreas historicamente mais afetadas.
O que os estudos mostram é que o território brasileiro está longe de ser imune ao fenômeno.
[LINK INTERNO SUGERIDO: matéria sobre sistemas de alerta e monitoramento de tornados no Brasil]
Então, onde o risco merece maior atenção?
Com base nas fontes disponíveis, a resposta pode ser dividida em duas escalas.
Em âmbito nacional, o Cemaden destaca São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul entre os estados com maior risco de ocorrência de tornados e trombas-d’água.
Quando o foco é especificamente o Sul do Brasil, a climatologia publicada por pesquisadores da UFSM encontrou uma concentração particularmente significativa no norte do Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná.
Essa combinação de pesquisas coloca o Centro-Sul do país como a principal região de atenção, mas sem excluir a possibilidade de tornados em outras áreas brasileiras.
A melhoria dos radares meteorológicos, das redes de observação, da documentação de danos e dos bancos de dados deverá permitir que futuros estudos determinem com maior precisão quais partes do território possuem a maior frequência e probabilidade de ocorrência.
Até lá, a conclusão mais segura é que tornados fazem parte da meteorologia brasileira e que alertas de tempestades severas, principalmente nas áreas já identificadas como mais favoráveis, devem ser levados a sério.
Fontes consultadas
- Cemaden — Tornados e trombas-d’água
- Ciência e Natura/UFSM — Climatologia de ocorrências tornádicas no Sul do Brasil
- Climate Dynamics — Atmospheric environments associated with tornadoes in southern Brazil and neighboring areas
- American Meteorological Society — An Increase in the Number of Tornado Reports in Brazil
- Simepar — Confirmação do tornado em Piraí do Sul em agosto de 2026
- Simepar — Balanço de tempestades severas e tornados de janeiro de 2026
Apuração e curadoria: Xplora News. Conteúdo elaborado a partir das fontes indicadas, com seleção de pauta, verificação e revisão editorial humana. Ferramentas de inteligência artificial podem ser utilizadas como apoio à organização e à redação.




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