Os aviões amarelos e vermelhos que aparecem voando rente a lagos e ao mar se tornaram uma das principais imagens do combate aos grandes incêndios florestais que atingem a Europa. Conhecidas popularmente como Canadair, essas aeronaves conseguem coletar água sem precisar pousar ou retornar a um aeroporto depois de cada lançamento.
O modelo mais conhecido é o Canadair CL-415, um avião anfíbio desenvolvido especificamente para operações contra incêndios. Durante a coleta, a aeronave toca a superfície da água em alta velocidade e utiliza entradas instaladas na parte inferior do casco para encher seus reservatórios.
Em aproximadamente 12 segundos, um Canadair pode recolher cerca de 6 mil litros de água. A operação pode ser realizada em lagos, reservatórios, rios suficientemente largos e até no mar. Quando existe uma fonte de água próxima ao incêndio, o avião consegue repetir o ciclo de abastecimento e lançamento várias vezes em um período relativamente curto.
Como os aviões Canadair ajudam a controlar o fogo
Depois de coletar a água, o avião sobe novamente e segue até a área atingida. O lançamento é feito sobre as chamas, nas laterais do incêndio ou em pontos estratégicos definidos pelas equipes de coordenação.
A água reduz temporariamente a temperatura e a intensidade das chamas. Em algumas operações, ela também pode ser misturada com espuma, aumentando sua capacidade de aderir à vegetação.
Esses aviões, porém, não apagam sozinhos incêndios de grandes dimensões. Sua principal função é diminuir a força do fogo, proteger casas, estradas e outras estruturas, além de criar condições para que bombeiros e equipes terrestres consigam avançar.
Também são utilizados modelos menores, como o Air Tractor AT-802F Fire Boss. Equipado com flutuadores, ele pode coletar aproximadamente 3 mil litros de água em uma passagem de 12 a 15 segundos. Por ser menor e mais leve, é empregado em ataques rápidos e repetidos, principalmente quando a fonte de água está perto das chamas.
Aeronaves foram enviadas para França e Espanha
A dimensão dos incêndios de julho de 2026 levou França e Espanha a solicitarem ajuda internacional por meio do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia.
A França recebeu sete aviões e quatro helicópteros enviados por República Tcheca, Croácia, Alemanha, Portugal, Eslováquia, Suécia e Turquia. A Espanha recebeu seis aviões da Grécia, Itália e Turquia, além de 134 profissionais e 41 veículos enviados por Portugal.
Grande parte dessas aeronaves pertence à frota estratégica do rescEU, criada para auxiliar países quando os meios nacionais não são suficientes. A reserva europeia conta com 22 aviões e cinco helicópteros de combate a incêndios.
Entre os reforços enviados à Espanha estavam quatro aviões Canadair da Grécia e da Itália. Essas aeronaves foram direcionadas para operações contra os grandes focos registrados no centro e no leste do país.
Na França, além dos aviões anfíbios, aeronaves Dash 8 estão sendo usadas para lançar água e produtos retardantes. Diferentemente dos Canadair, esses aviões precisam ser reabastecidos em terra, mas conseguem transportar uma carga maior e criar linhas de retardante para desacelerar o avanço das chamas.
A Itália também mobilizou aviões Canadair para combater um incêndio próximo a Peschici, na região da Puglia. Três aeronaves atuaram no local depois que o fogo atingiu florestas e áreas de vegetação costeira, provocando a retirada de turistas de praias e acampamentos.
Mais de 300 mil hectares queimados
Os incêndios registrados na França e na Espanha já queimaram, juntos, mais de 300 mil hectares, o equivalente a mais de 3 mil quilômetros quadrados. A área supera várias grandes cidades europeias somadas.
Na França, mais de 116 mil hectares foram atingidos desde o início de 2026. Somente na região da Gironda, nos arredores de Bordeaux, um enorme incêndio queimou uma área estimada em aproximadamente quatro vezes o tamanho de Paris.
O fogo chegou a ficar a cerca de 15 quilômetros dos acessos à região metropolitana de Bordeaux. Mais de 220 mil pessoas deixaram suas casas ou locais de hospedagem na região. Embora o incêndio tenha parado de avançar durante parte desta segunda-feira, 27 de julho, autoridades alertaram que ele ainda não estava completamente controlado.
Na Espanha, aproximadamente 153 mil hectares já foram queimados neste ano. Um único incêndio na província de Ávila, a oeste de Madri, ultrapassou 50 mil hectares e foi classificado pelo governo como o maior da história recente do país.
Outro foco na província de Castellón já havia destruído mais de 4,3 mil hectares e avançado sobre o Parque Natural da Serra de Espadán, região coberta por florestas de pinheiros e sobreiros.
Mais de 300 mil pessoas foram retiradas de áreas ameaçadas na França e na Espanha, formando uma das maiores operações de evacuação já realizadas na Europa nas últimas décadas.
Calor, seca e vento dificultam o combate
Os incêndios estão sendo alimentados por uma combinação de temperaturas extremas, pouca chuva, baixa umidade no solo e vegetação ressecada.
Grande parte do oeste, centro e sul da Europa registrou solos mais secos do que o normal em junho. França, Espanha, Portugal e Itália ficaram especialmente vulneráveis depois de sucessivas ondas de calor e períodos com precipitação abaixo da média.
O vento também representa um dos maiores perigos. Mudanças repentinas de direção podem empurrar as chamas para cidades, estradas ou áreas consideradas anteriormente seguras. Incêndios muito intensos também conseguem criar suas próprias correntes de ar, espalhando brasas por longas distâncias e provocando novos focos.
Europa enfrenta falta de aviões e pilotos
A quantidade e a intensidade dos incêndios também estão pressionando a capacidade aérea disponível no continente.
A empresa de serviços de emergência aérea Avincis informou que suas aeronaves já realizaram mais de 5 mil horas de voo em operações contra incêndios na Espanha e em Portugal durante 2026, mais que o dobro do registrado no mesmo período de 2025.
A Europa encomendou 22 unidades da nova geração do Canadair, atualmente chamada Canadair 515. As primeiras entregas, porém, são esperadas somente a partir de 2028. Até lá, países europeus continuarão dependendo das frotas existentes e da cooperação internacional durante os períodos mais críticos.
Com a aproximação de novas ondas de calor, os Canadair, Fire Boss, helicópteros e aviões de lançamento de retardante devem continuar realizando operações intensas. No entanto, o controle definitivo dos incêndios dependerá da atuação conjunta entre aeronaves, bombeiros em terra, máquinas que abrem faixas sem vegetação e condições meteorológicas mais favoráveis.

